Criei este blog com o incentivo dos meus amigos...amigos corujas que sempre elogiaram meus textos e me deram coragem para que eu os tirasse das gavetas ou das pastas do computador....







quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O último espetáculo

Houve um tempo em que o circo era programa imperdível. Diversão para os adultos. Alegria das crianças. Todos aguardavam com ansiedade a chegada do Orlando Orfei ou Vostok na cidade. Naquela época, a lona colorida chamava a atenção. Animais ainda eram permitidos pelo IBAMA. Os palhaços tinham graça. E os artistas eram lindos jovens em brilhantes figurinos. Circo tinha glamour. E o respeitável público lotava arquibancadas e camarotes munidos de pipoca e algodão doce à espera do espetáculo. Com o tempo o circo foi perdendo seu esplendor e patrocinadores. Os animais foram proibidos e os domadores entediaram-se por falta do que fazer. O pessoal foi envelhecendo e o figurino perdendo as lantejoulas. As palhaçadas não arrancavam mais risadas. E o coelho da cartola virou apenas um clichê. O circo desgastou. Como desgastam os relacionamentos. Livia e Deco se conheceram no circo. Sua história de amor começou sob a lona colorida. Não perdiam um espetáculo e levavam pra casa o universo lúdico do picadeiro. Chamavam-se, carinhosamente, de palhacinha e trapezista. Ela, com seu jeito moleque e sua alegria espalhafatosa vivia fazendo-o rir. E o chamava de trapezista, porque admirava seus bíceps. Repetia, pra quem quisesse ouvir, que se atiraria nos braços dele, do mais alto trapézio de olhos vendados e sem rede, tal era sua confiança em Deco. E assim passavam os dias. Malabaristas dos problemas cotidianos. Equilibristas do frágil orçamento. Fazendo mágica no dia a dia e dando risada. À noite, o espetáculo era outro. Brincavam de fera e domador, com direito a chicotinho, lingerie tigrada e rugidos sensuais. Pródigos em contorcionismos. Viva o circo! O tempo foi passando. Deco perdeu o emprego. Livia ganhou peso. Os shows noturnos foram ficando cada vez mais raros.. E o picadeiro virou campo de batalha. --Levanta desse sofá, palhaço, e vai comprar carne pro almoço! --Carne? Com que dinheiro? Tá pensando que eu sou mágico? --Mágica é o que eu queria ser, pra fazer você desaparecer de uma vez por todas! Saíram de cena a palhacinha e o trapezista. Ficaram pra trás as risadas e o algodão doce. Fecharam-se as cortinas. Livia e Deco se apresentaram para o último espetáculo. O divórcio.

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