Criei este blog com o incentivo dos meus amigos...amigos corujas que sempre elogiaram meus textos e me deram coragem para que eu os tirasse das gavetas ou das pastas do computador....







segunda-feira, 4 de maio de 2015

Machos e Fêmeas

Homens e mulheres são diferentes. Todo mundo sabe disso. Na teoria. Mas só quem dividiu a infância com alguém do sexo oposto conhece, na prática, essa diferença. Não vale pai e mãe. Não vale coleguinhas da creche. Estou falando de irmãos e irmãs. O menino que desde pequeno conviveu com as cores, gostos, reações, gestual e mistérios do universo feminino, certamente tem outra percepção das mulheres. O homem que presenciou os escândalos com baratas, o drama do cabelo que nunca tá bom, o desespero com que é proferida a frase – “Eu não tenho roupa!” - em frente ao armário abarrotado, leva vantagem em relação aos que foram criados entre iguais. O mesmo serve pra nós. Quem tem irmão aprendeu, desde cedo, que o mundo não é cor-de-rosa. Ao conhecer um exemplar do sexo masculino, desde a tenra idade, e dividir com ele o espaço íntimo de uma casa ficamos expostas às barbáries dos machos. O arroto depois da coca-cola. O suor depois do futebol. O sangue a cada esfolado no joelho. São pré-requisitos da virilidade futura. Uma amostra grátis do que está por vir quando nos tornarmos namoradas, esposas e mães. E o aprendizado não para por aí. Na adolescência, irmãos do sexo oposto funcionam como alter ego. Nos dão pistas sobre um universo que não é o nosso. E mesmo que utilizem a linguagem falada entre irmãos, pontuada por implicância mútua, as dicas são preciosas. Um adolescente que tem irmã, jamais sairá de casa com bermuda listrada e camisa xadrez. O universo feminino, fraternalmente representado por ela, não admite esta combinação. Irmãs são vigilantes. O oposto também é verdadeiro. Dificilmente uma menina irá pra rua com um micro vestido depois de ouvir seu irmão dizer que é roupa de piranha. Irmãos são censores. E nessa troca de experiências e de farpas vamos aprendendo como se comportam machos e fêmeas. Ter irmãos e irmãs não vai garantir que você seja um expert no sexo oposto ou que será facilmente compreendido pelo outro. Mas, na teoria, ajuda bastante. Por via das dúvidas, antes de se apaixonar, faça a pergunta: Você tem irmãos?

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O último espetáculo

Houve um tempo em que o circo era programa imperdível. Diversão para os adultos. Alegria das crianças. Todos aguardavam com ansiedade a chegada do Orlando Orfei ou Vostok na cidade. Naquela época, a lona colorida chamava a atenção. Animais ainda eram permitidos pelo IBAMA. Os palhaços tinham graça. E os artistas eram lindos jovens em brilhantes figurinos. Circo tinha glamour. E o respeitável público lotava arquibancadas e camarotes munidos de pipoca e algodão doce à espera do espetáculo. Com o tempo o circo foi perdendo seu esplendor e patrocinadores. Os animais foram proibidos e os domadores entediaram-se por falta do que fazer. O pessoal foi envelhecendo e o figurino perdendo as lantejoulas. As palhaçadas não arrancavam mais risadas. E o coelho da cartola virou apenas um clichê. O circo desgastou. Como desgastam os relacionamentos. Livia e Deco se conheceram no circo. Sua história de amor começou sob a lona colorida. Não perdiam um espetáculo e levavam pra casa o universo lúdico do picadeiro. Chamavam-se, carinhosamente, de palhacinha e trapezista. Ela, com seu jeito moleque e sua alegria espalhafatosa vivia fazendo-o rir. E o chamava de trapezista, porque admirava seus bíceps. Repetia, pra quem quisesse ouvir, que se atiraria nos braços dele, do mais alto trapézio de olhos vendados e sem rede, tal era sua confiança em Deco. E assim passavam os dias. Malabaristas dos problemas cotidianos. Equilibristas do frágil orçamento. Fazendo mágica no dia a dia e dando risada. À noite, o espetáculo era outro. Brincavam de fera e domador, com direito a chicotinho, lingerie tigrada e rugidos sensuais. Pródigos em contorcionismos. Viva o circo! O tempo foi passando. Deco perdeu o emprego. Livia ganhou peso. Os shows noturnos foram ficando cada vez mais raros.. E o picadeiro virou campo de batalha. --Levanta desse sofá, palhaço, e vai comprar carne pro almoço! --Carne? Com que dinheiro? Tá pensando que eu sou mágico? --Mágica é o que eu queria ser, pra fazer você desaparecer de uma vez por todas! Saíram de cena a palhacinha e o trapezista. Ficaram pra trás as risadas e o algodão doce. Fecharam-se as cortinas. Livia e Deco se apresentaram para o último espetáculo. O divórcio.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Despedida

Tua partida me parte o coração. Assim como um verbo no passado. Uma distância no presente. Uma história mal contada. Uma brincadeira de mau gosto. Um susto.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Fluidos


Mais de sessenta por cento do nosso corpo é constituído de líquido. Somos fluidos que circulam, oxigenam, expelem, filtram. Fluidos que nos mantém vivos, que trocam de corpos, que geram, que salvam vidas, que contaminam, que podem matar. Sim. Somos sangue. Suor. E lágrimas. Mas somos também urina, esperma e saliva.
Quando somos sangue, somos ferida. Somos óvulos não fecundados. Somos doadores, portadores, receptores.
Quando somos suor, somos fruto do nosso esforço. Resultado dos nossos medos. Somos trabalho, exercício e sexo. Somos o que saímos por cada poro.
Quando somos lágrima, somos sentimentos. Somos o que não podemos conter. Somos paixão, saudade, impotência e raiva.
Quando somos urina, somos o resto do que bebemos. A sobra. O que não nos interessa mais. Somos involuntária na infância e na velhice e, muitas vezes, inconveniente na idade adulta.
Quando somos esperma somos orgasmo. Trocamos de corpos, geramos vida, molhamos os sonhos da adolescência. Somos a prova do crime.
Quando somos saliva somos o desejo. Somos a fome e a gula. Somos , em suma, beijo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cuidadores de Coração


Foto: Rafael Eifler

Em uma situação díficil, que te pega de surpresa e te deixa de coração partido, eles aparecem.
São os CC , Cuidadores de Coração.
Família, amigos, próximos ou distantes, virtuais ou reais, eles surgem de todos os cantos com um único objetivo: não deixar a peteca cair, manter a bola em jogo, levantar o astral, ou seja lá o nome que se dá à tentativa de sobreviver a um pé na bunda!!
Os Cuidadores de Coração oferecem colo, ombro , tempo e conselhos. E é aí que começa a confusão...

Há os CC condescendentes...
-“Sim! Manda o e-mail! Vai te fazer bem!”

Os radicais, que compram a briga como se fosse deles!
-“O que? Nem pensar! Dá uma dura! Some! Finge que não tá nem aí! Ignora aquele cara!”

E os ponderados..
“Olha, faz o que o teu coração mandar, mas quem sabe substitui “o saudade desesperada” por “sinto tua falta?”

Os CC não vão te deixar parar (e nem você vai querer) . O telefone vai tocar incessantemente e você vai precisar de uma secretária para organizar a agenda social.. E, mesmo jurando que você não está deprimida hoje, que só está cansada e quer ficar em casa, eles , os CC acham uma solução...- “Ok, estou indo praí!”

E tem também as recomendações: “volta a estudar ingles!”, “Quem sabe aula de dança, hein?” “E aquele projeto? Será que não é hora de tirar da gaveta?
E, de uma hora pra outra, você vira MAIS, e eles confessam, porque acreditam ou porque querem te ajudar, que “Você sempre foi MAIS inteligente que ele” “MAIS bonita que ele” “MAIS legal que ele” e você fica se achando. É esta a intenção dos CC!
Se você começar a comer demais eles vão te impedir. Se você perder o apetite eles vão te empurrar comida! Se você dormir demais eles vão aparecer pra te acordar...se você perder o sono, eles te indicam um remedinho...
Eles vão te impedir de fazer besteira, vão te ouvir a qualquer hora, vão tentar te distrair, vão alimentar teu ego, vão buscar explicações, vão tomar um porre junto contigo, vão te indicar terapeuta...
Os Cuidadores de Coração vão te encher de carinho, vão te mostrar o caminho e vão te ajudar a consertar teu coração, simplesmnte porque eles precisam disso..... pois eles também moram lá dentro.

Texto escrito, logo após a minha separação, em homenagem a todas as pessoas que moram no meu coração...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Viagra para mulheres


Serigrafia Adri Eifler

Corre o boato de que estão pesquisando o Viagra para mulheres.
Talvez demore (dirão os pessimistas), afinal com as mulheres as coisas são bem mais complicadas (dirão os machistas).
Já imagino o dia do lançamento. Uma pílula dourada, é claro, num estojinho de veludo (que depois de vazio serviria para guardar jóias).
Assim como o Viagra dos homens, também levantaria, só que no nosso caso, peitos, bundas e moral. Num simples comprimido, perderíamos o excesso de peso, culotes e cutículas. Nosso cabelo ficaria sedoso e com volume.
Acabaria com os pelos supérfluos sem dor. Nossa pele ficaria bronzeada, sem rugas nem manchas. Seria o fim das estrias e celulites!
A cada comprimido nos transformaríamos numa Cindy Crawford!
Mas não basta! Queremos mais. E já que ele fez milagre com os homens, também queremos satisfação garantida!
O nosso Viagra acabaria com a TPM e as dores de cabeça. Interromperia as transmissões de futebol pela TV. Liberaria o limite do cartão de crédito. Daria um fim nas louças da pia. Faria com que a empregada nunca mais faltasse na Segunda-feira. E o que é mais importante, mandaria as crianças mais cedo pra cama. E então nos transformaríamos numa Hilda Furacão e nos entregaríamos a noites intermináveis de amor!
Ah! E antes que acabasse o efeito, receberíamos flores!

Texto escrito na época do lançamento do Viagra

terça-feira, 26 de abril de 2011

Vid@


Foto: Adri Eifler

Vai dizer que a vida não seria bem mais fácil se fosse como no computador?
Todos os bons momentos, as melhores emoções, encontros inesquecívies...bastaria SALVAR. Se quiséssemos organizar as lembranças, separar as recordações ...SALVAR COMO....
Ao contrário, poderíamos DELETAR , num toque, os aborrecimentos, experiências ruins, pessoas incovenientes , decisões equivocadas, arrependimentos...Não sem antes responder “tem certeza que deseja excluir definitivamente este arquivo?”.
Para tudo o que desejássemos, bastaria fazer um DOWNLOAD , e o melhor, free!
Ao viajarmos para um lugar fantástico ou nos depararmos com uma cena impressionante, nada de câmeras, lentes, regulagem ...Faríamos um PRINT SCREEN !
Se tivéssemos alguma dúvida...sobre como se escreve, onde se localiza, a cotação do dólar, a previsão do tempo, o nome daquele filme.......GOOGLE!
Quando estivéssemos certos das nossas escolhas: ENTER
Depois de um dia de trabalho, exaustos, ao invés de ter que buscar o filho numa festa de madrugada...Ctrl X > Ctrl V .....recortaríamos da balada e o colaríamos na cama!.
E para os dias em que tivéssemos que fazer várias coisas ao mesmo tempo..bastaria abrir uma NOVA ABA, tantas quanto fossem necessárias e poderíamos administrar o trabalho, a casa, os filhos, o marido, a empregada, o cachorro ...sem sair do lugar.
Em uma conversa, teríamos o poder de escolher entre estar DISPONIVEL , AUSENTE ou, melhor ainda, INVISÍVEL!!!! Seria o fim do papo chato e das discussões improdutivas!
Se acordássemos com olheiras, pálidas demais ou com uma espinha enorme na ponta do nariz...PHOTOSHOP!!!! Poderiamos, inclusive, aumentar peitos e diminuir culotes sem precisar de cirurgiões e academias, e sairíamos de casa, como elas saem nas capas das revistas!!!
Nossas doenças mais graves seriam os vírus. Bastaria um bom antivirus e seriamos avisados antes mesmo de sermos infectados!
Nossa vida teria a velocidade que nossa banda larga permitisse ou nosso sistema operacional proporcionasse !
E se as coisas estivessem indo devagar, meio emperradas, um pouco travadas, bastaria ATUALIZAR ou dar um Ctrl + Alt + Del .
Mas, o melhor de tudo é que, se batesse o desespero, e nada mais funcionasse na nossa vida, teriamos a chance de REINICIAR!!!!

sábado, 16 de abril de 2011

Tem cada uma...


Lomo by Rafael Eifler

Agora tem uma comunidade que se chama “meus pais dançam engraçado”, ou algo assim. Engraçado são eles pensarem isso da gente! Fazemos o maior esforço pra balançar no ritmo da música , e olha que às vezes nem identificamos aquilo como música! Tentamos coordenar membros superiores com membros inferiores e ainda por cima colocar alguma graça nisso. Arriscamos até a abaixadinha mesmo sabendo que podemos nunca mais voltar de lá!! Quanta injustiça !
Eles desconhecem totalmente o nosso sacrifício pra segurar os dedos indicadores quando toca “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”..... E pra tentar amenizar a vergonha que sentem da gente ,
ainda por cima imploram “mãe só não levanta os braços!!!”
Ainda bem que eles não estavam presentes na nossa fase John Travolta!!
O engraçado é eles não entenderem que a gente não dança mais pra seduzir, a gente dança pra se divertir, pra exorcizar, pra sacudir o corpo mesmo que ele não esteja na melhor forma! Não buscamos a performance buscamos a catarse. Não sabemos a coreografia nem a letra da música e nos divertimos mesmo assim!!! Mesmo que nosso bumbum sacuda mais do que devia, ou nossa cintura mexa menos do que devia...ou que a gente leve três dias tentando “requebrar o pescoço” como manda a música! O que vale é dançar! Seja funk em ritmo de samba, techno achando que é disco ou simplesmente botando pra fora o Carlinhos de Jesus que vive dentro da gente!!!
Não desistam, dancem sempre...girem, requebrem, rebolem, joguem as mãos pra cima , levantem a poeira , mas só abusem das abaixadinhas se tiverem um bom ortopedista!!!
De minha parte prometo continuar dançando, engraçado ou não, aos 50, 60, 70, 80....e só o que irá mudar será a altura do meu salto e o tamanho da minha bolsinha, pra caber o meu desfibrilador!

Adriana Eifler

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O pra sempre sempre acaba...


Foto: Adri Eifler

Ontem nossos filhos envelheceram, e nós morremos, um pouco.
A morte trágica de uma amigo, cúmplice de suas infâncias, que tinha um futuro parecido com o deles, os envelhece. Faz com que amadureçam à força e os arranca repentinamente da Terra do Nunca, onde nunca sequer imaginaram que isto pudesse acontecer.
Velar e enterrar alguém que tem a mesma idade, e os mesmo projetos de vida que eles, os expõe a dura realidade da finitude, à inegável fragilidade da vida e a incômoda constatação da nossa impotência.
Eles perderam um pouco da sua juventude ao descobrir que o “pra sempre sempre acaba” como diz a letra da música que cantaram em coro, e aos prantos, para o amigo morto.
Quanto a nós, pais, que já colecionamos indesejáveis perdas pelo caminho, ontem morremos um pouco.
Morremos de dor ao nos imaginarmos no lugar destes pais que perderam seu filho sem explicações nem despedidas.
Morremos de pena ao ver o sofrimento e a incredulidade no rosto de nosso meninos.
Morremos de raiva de não podermos dar-lhes, além de educação e amor, segurança.
Morremos de medo.
Neste momento o que nos resta, além da perplexidade, é a ânsia de buscar uma explicação para a morte do Igor.
Penso que esta tragédia servirá como alerta aos pais, e aos próprios jovens, sobre o perigo que está por trás destas “festas” organizadas por pessoas irresponsáveis e descomprometidas.
Servirá, também, para que sejamos mais incisivos na hora do não e para que eles compreendam a nossa atitude e escutem nossos conselhos.
No entanto, o que mais me consola é pensar que o Igor tenha vindo cumprir uma missão e que Deus o tenha chamado, cedo demais, porque estava precisando dele para, quem sabe, escrever lindos textos e compor músicas que falam de amor.

Este texto foi escrito no dia 21 de Outubro de 2008, um dia após o enterro de Igor Santos Carneiro, baleado em uma “festa” onde milhares de jovens viveram momentos de terror.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Uni Duni Tê


Foto: RAFAEL EIFLER
Modelo: MARIANA COSTA

Uma das coisas mais difíceis da vida , sem dúvida, são as decisões.
Ter que escolher entre A e B nunca foi fácil....
Quando somos crianças, no entanto, o processo de escolha é mais lúdico...uni duni tê....vou comer branquinho e não negrinho...uni dune tê...vou dormir na casa da Joana e não da Maria.....Não há sofrimento. É simples: ou isso ou aquilo!
Um pouco adiante a vida começa a nos impor decisões mais importantes...e a gente começa a se conhecer melhor ....Vou ser médico ou músico? Caso ou compro uma bicicleta? Um ou dois filhos? Casa ou apartamento? E vamos determinando nosso futuro sem questionar muito as opções....sentimos aquilo e, pronto, decidimos por aquilo! Temos uma vida interia pela frente e a mínima noção do que seja arrependimento!
Crescemos, amadurecemos e temos que conviver com nossas escolhas...ou melhor, temos que conviver com o fantasma das nossas “não escolhas”, nossas renúncias...o que ficou no “e se....”
..E se eu tivesse ido pra Italia fazer o pós? E se eu tivesse estudado frances? E se eu tivesse sido músico? E se eu, simplesmente , tivesse comprado uma bicicleta....
Com ou sem arrependimentos, o tempo passa... Somos forçados a carregar o peso das escolhas não feitas, assumir o caminho que resolvemos trilhar naquela encruzilhada que ficou pra trás. As escolhas começam a virar culpa...e procuramos os amigos, terapia, cartomantes e remédios que possam nos aliviar, nos consolar, dividir com a gente a responsabilidade sobre as nossas decisões. Ouvimos conselhos e opiniões, mas decidir é um processo solitário e só nós somos responsáveis por ele...dê certo ou errado.
Por vezes, na ânsia de justificar nossas escolhas , usamos o destino como aliado, um álibi, e nos confortamos com o fato de que “era pra ser”....
Por mais dolorido que possa parecer, somos resultado da nossas escolhas...ou das coisas que escolhemos deixar pra trás.... e amadurecer significa arcar com elas..
Mas chega um momento no qual nossas escolhas passam a ser definitivas, não há mais tempo pra arrependimentos, impossível dar a ré e pegar a outra estrada, não há com quem dividir o peso de uma decisão e sentimos uma saudade enorme do tempo em que o “salamê minguê” apontava o caminho....

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ao Todo


Foto: Rafael Eifler

Chega de metades. Partes.
Eu quero um todo. Tudo.
Não quero “meias-bocas”.
Quero bocas inteiras. Que me beijem. Que me engulam toda.
Que façam respiração boca-a-boca. Que me ressuscitem.
Não quero meias-palavras.
Quero frases inteiras. Quero páginas e páginas. Discursos.
Tampouco quero meias-verdades.
Quero a verdade doída. Verdadeira. Nua e crua. Na cara. Na lata.
Quero pratos limpos.
Nada de meio ambiente. Quero espaço. Quero todos os lugares. O mundo.
Meias-luas?
Nunca. Quero luas-cheias. Redondas. Amarelas. Gigantes.
Nunca mais meia-luz.
Quero spots. Holofotes. Faróis-de-milha. Quero tudo às claras.
Não quero mais meias-entradas.
Quero entrar inteira. De cabeça.
Não quero mais o meio-termo.
Quero os extremos.
Nem meios-tons.
Quero contrastes.
Também não quero meias-voltas.
Quero 360 graus. Quero a volta por cima. Por baixo. Quero ficar tonta.
Meia-hora?
Nem pensar. Quero horas a fio. A toda hora. Sempre.
Não quero mais meia-estação. Quero calor e frio ao mesmo tempo.
Meio-dia e meia-noite?
Não. Quero dias e noites. Madrugadas. Tardinhas. Hoje. Amanhã.
E depois.
E se não for assim. Obrigada.
Eu não quero nada.

terça-feira, 29 de março de 2011

Classificados


Foto: Adri Eifler

ALUGA-SE um coração com vista para o mar. Espaçoso, aconchegante e ensolarado!
Desocupado há 4 meses, talvez precise de pequenos reparos. O antigo morador não foi nada cuidadoso na hora da mudança!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Amigas de Infância



Amiga de infância é aquela que conviveu com a gente antes da gente virar gente grande.
Antes do primeiro beijo. Antes do primeiro porre. Antes do primeiro amor.
Antes da gente decidir o que ia ser quando crescer. Antes da gente crescer.
São pessoas que escolhemos para descobrir o mundo junto com a gente.
Que acompanharam nossas transformações e compartilharam nossos segredos.
Amigas de infância conhecem nossos medos, suportam nossos defeitos e ouvem nossos conselhos (mesmo que não os sigam). São um pouco irmãs, um tanto primas... às vezes mais que parentes.
Mas o tempo vai passar e elas vão seguir cada uma o seu caminho, vão bater asas em direções diferentes atrás dos sonhos que sonharam ainda crianças...vão se distanciando sem querer em busca de novos mundos e outras pessoas...
No entanto elas farão parte da nossa vida pra sempre e cada vez que pensarmos no passado elas vão estar lá, nas páginas dos nossos diários, nos álbuns de fotografias, nas histórias que temos pra contar...
Estarão nas nossas lembranças, sorrindo, pra nos lembrar que sempre seremos crianças em algum lugar do coração.

sexta-feira, 25 de março de 2011

AMO-T


Foto: Rafael Eifler


Vamos fazer um TESTE.
TALVEZ viver no mesmo TETO.
Eu faço TEU TIPO. TENHO TATUAGEM. TOPO um TRAGO.
E falo TOLICES.
Eu TRAÇO TODAS.
Não sou nada TRADICIONAL , mas danço TANGO com TALENTO
Fico TONTA e caio em TENTAÇÃO.
Vai ser uma relação TRANSCEDENTAL.
Com TUDO. TERNURA e TESÃO TOTAL.
Eu vou me prender na TUA TEIA. Entrar pra TUA TURMA
E TOCAR no mesmo TOM . Vou ser TEU TALISMÃ.
Mas vamos fazer um TRATO. Se vier o TÉDIO. Baixar a TEMPERATURA
E pintar a TRAIÇÃO.
Sem TRUQUES nem TRAPAÇAS.
Me dá um TOQUE, com TATO. Eu me TOCO. Dou a última TRAGADA,
sigo o meu TRAJETO e desmancho esse TRIÂNGULO.
Sem TERROR.
TRISTEZA é TRANSITÓRIA.
Amor na TEORIA é coisa de TEATRO.
Mas eu sou TEIMOSA. TENHO TEMPO...
...e vou TENTANDO

quarta-feira, 23 de março de 2011

Envelhescência


Eu tenho filha adolescente.
E como toda mãe de adolescente tenho visto minha paciência sendo testada diariamente.
Abrimos os olhos e aquele bebezinho que antes sorria e estendia os bracinhos, agora vira as costas e bate a porta do quarto, fechando-se num mundo só seu.
Mas até aí, tudo estava previsto. Todo mundo já passou por isso , inclusive nossos pais (Lembra disso?) e sobreviveu. E, se não há manual que ensine a lidar com filhos adolescentes, o que não faltam são teorias, dicas, livros e artigos que tratam do assunto exaustivamente.
Agora, o que realmente me preocupa é a inexistência de alguma coisa que os faça entender a fase pela qual nós estamos passando.
Porque, se eles estão num momento difícil, perdidos entre a infância e a idade adulta o que dizer de nós que estamos entrando na “envelhescência”?
Alguém tem que explicar a eles que também dói, em nós, as mudanças pelas quais nosso corpo passa.Que não sentimos incômodo por estarem nascendo os seios, em contrapartida, nos incomoda que eles não estejam mais onde deveriam estar.
Que a barba que neles aparece, aparece com a mesma rapidez que nossa calvice.
Que a surpresa que lhes causa o nascimento de pelos, não é maior que a nossa com nossos fios brancos.
Que enquanto, neles, as curvas se acentuam, os músculos enrijecem e os hormônios trabalham a favor, nós vamos perdendo a forma e nossos hormônios enchem-se de preguiça.Por favor, alguém tem que lhes explicar que não mais nos angustiamos por não podermos ir a uma festa, mas nos desalenta perder uma boa noite de sono ou deixar de ler um bom livro.Eles precisam compreender que esbanjamos experiência (e este é o nosso trunfo na hora da barganha) mas que nos falta pique.
Que já não temos a mesma pressa, não nos surpreendemos com qualquer coisa, que a tecnologia por vezes nos intimida e que aquilo que eles ouvem a toda altura, nós, um dia, também já chamamos de música.
Eles não têm a mínima idéia e muito menos culpa, mas a cada novidade que é lançada, cada moda que eles adotam, cada vez que falam de seus ídolos nos lançam no vazio da “envelhescência”. Nos deixam perdidos entre o que éramos e o que estamos nos tornando e nos fazem ver, claramente, que o tempo não está mudando apenas eles.
Enquanto eles transformam-se em homens e mulheres, nós nos transformamos em velhos.Não há nada de antinatural nisso. É a lei da vida: nascer, crescer, amadurecer e morrer. E não é contra isso que clamo.
Só peço que não nos cobrem tanta paciência, que nos aliviem dessa culpa que carregamos, que parem de dizer que devemos ceder, tolerar e que deixem de supervalorizar as mudanças pelas quais eles passam . .
Afinal, nós sabemos que se sobrevive à adolescência , por mais complicada que ela seja. Já à velhice....

sábado, 19 de março de 2011

Redenção


Redenção
nos rendemos aos teus encantos
e tentamos traduzir os teus recantos
E na imensidão da tua paisagem
ousamos registrar tuas imagens
Tua paz nos acalma
Teus bancos têm alma
E de repente, sem mais nem porquê
nos sentimos um pouco Monet
Quanto deleite nos proporciona
tudo em ti emociona
E a cada tentativa de esboço,
cada risco que traçamos com esforço
nos prova que teu verde e teu céu
não cabem numa folha de papel.


Texto escrito na aula de Desenho do IA, quando costumávamos desenhar na Redenção com a Tereza Poester.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Escrever dói.

O processo criativo como um todo é dolorido. A escrita, por sua vez, não é menos indolor. Há que se ter o que dizer, antes mesmo de nos depararmos com a dificuldade do como dizer. Querendo ser inéditos descobrimos, com um certo desconforto, que não há o que não tenha sido dito. Resta-nos então dizer de outra maneira o que já foi dito, fugir às tentações do plágio , das palavras gastas, do lugar comum. Não nos sobra alternativa senão criar. Nada mais desafiador que uma folha em branco. Nada mais incômodo que a tentativa de ordenar os pensamentos que nos vêm em forma de palavras. Nada mais doloroso que tentar achar as palavras certas e ordená-las para que façam sentido. E aguardamos , inutilmente , a inspiração. Esperamos, ansiosamente, por um insight . E nada. Surgem várias primeiras frases mas nenhuma é suficientemente boa e acabam se acumulando na lixeira ou são impiedosamente deletadas do nosso computador. As mãos suam. A cabeça lateja. O coração dispara. Somatizamos a nossa impotência. Não , escrever não é fácil. Não há nada de simples no ato de transformar sentimentos, sensações, opiniões em palavra escrita. Mas arrisco a dizer, no entanto, que mais difícil que escrever, é escrever para alguém. O que nos assombra é a opinião alheia: o leitor. Basta lembrar a facilidade com que escrevíamos nossos diários adolescentes, nossas cartas de amor platônico, nossos poemas engavetados. Burlávamos nossa autocensura e criávamos nossas próprias regras deixando fluir , naturalmente, as palavras que jamais seriam lidas. Mas, inevitavelmente, crescemos e somos obrigados a redigir para nos fazermos entender, para nos comunicarmos, para defendermos nossas idéias e fazermos valer nossas opiniões. Escrevemos para sobreviver. Por isso, não desistam. Escrevam! Cartas, bilhetes, tratados, artigos, monografias, dissertações, teses.... Escrevam com a mesma paixão com que escreviam seus diários. Escrever é exercício. Não há remédio. Escrevam, mesmo que doa.

Texto escrito em 2009 para cadeira de Laboratório de texto.